Programar uma aula como quem conta um conto

Programar uma aula como quem conta um conto*

Miguel Thompson, Diretor Acadêmico da Fundação Santillana no Brasil.

A cultura é um dos elementos distintivos de nossa espécie. Transmitir informação de uma geração à outra, transformá-la em conhecimento para dar significado ao mundo que nos cerca e desenvolver tecnologia para a resolução dos problemas emergentes, compõe nosso patrimônio cultural. Inicialmente, a aquisição desse conhecimento se deu pela transmissão oral, e associada às narrativas dramáticas, aventurescas, fantásticas ou mesmo de cunho prático, para prevenir os perigos da vida. A tradição oral ocidental foi compilada em diversas culturas, tendo como um dos grandes exemplos a Ilíada e a Odisseia (Homero), e a Teogonia (Hesíodo), nas quais se perpetuaram as aventuras de heróis e deuses gregos. A partir da narrativa se aprende e se imagina outras possibilidades para as histórias, se fantasia e se cria.

No entanto, na Modernidade, a ideia de narrativa como elemento central de aprendizagem foi dando espaço para uma transmissão de conhecimento baseada em listas de conteúdos. O Iluminismo, corrente filosófica iniciada no século XVII, aprofunda uma reflexão que coloca razão e ciência como elementos estruturantes da cultura. Seu ramo editorial, o Enciclopedismo, foi um movimento que se propôs a organizar o conhecimento em especialidades, listas, tópicos e esquemas. A escola pública começa a se estruturar influenciada por esse movimento. Podemos afirmar que as disciplinas escolares são filhas dessas enciclopédias. Esse modelo de transmissão e de produção foi fundamental para a verticalização e desenvolvimento das especialidades do conhecimento. O século XIX foi pródigo no estabelecimento de ciências como a Física, a Biologia, a Geologia e a Sociologia.

No mesmo período, a Revolução Industrial amplia a demanda de trabalhadores para as fábricas e serviços exigidos por um rápido processo de Urbanização e Globalização. A educação em escala ganha especial atenção, com o objetivo de formar mão de obra qualificada. Desta forma, é estabelecida a escola como conhecemos hoje: uma cultura fabril, amplificada pelo Fordismo do início do século XX, estruturada a partir do Iluminismo e do Enciclopedismo, nos afastando paulatinamente da narrativa e da fabulação que durante milênios nos serviu como elemento de compreensão do mundo.

Se durante boa parte do século XX esse modelo se mostrou satisfatório, já a partir do final da Segunda Guerra o cenário se modifica. A complexidade decorrente da ampliação de mobilidade das pessoas, e os meios de comunicação com abrangência global desafiam a escola a buscar novas possibilidades educacionais. A sociedade pós-industrial exige cada vez mais a capacidade de transpor conhecimentos específicos para situações emergentes. De fato, as novas gerações vêm construindo um embrionário processo de aprendizagem a partir das narrativas oferecidas pela cultura pop: youtubers carismáticos, seriados e documentários da Netflix, aventuras dos games e softwares educacionais gamificados, ou os memes distribuídos em seus celulares.

Os meios de produção cada vez mais se conectam às narrativas para construir suas marcas (branding), formar seus executivos (cases), vender seus produtos (storytelling) ou mesmo conseguir financiamentos para suas startups (pitches).

Dessa forma, construir os currículos como narrativa pode ser um dos grandes achados para trazermos significado para o processo de ensino-aprendizagem. Programar uma aula como quem conta um conto nos reconecta com uma tradição humana abandonada pelo modelo Enciclopedista e Fordista. O objetivo não é negar esses importantes modelos, que nos fez avançar muito enquanto civilização, mas temperar nossas didáticas com essas inquietações humanas que nos fazem avançar em busca de um ser humano integral e da Utopia. A BNCC traz muitas pistas para a construção de narrativas, nas propostas de trabalhos por temas, o desenvolvimento de projetos o a resolução de problemas. A história de Ulisses, ou mesmo os desafios de Hércules, não seriam tão saborosas não fossem os muitos problemas desenhados pelos deuses para que os heróis pudessem se formar integralmente. Chegou o tempo de preparar nossos estudantes para enfrentar a complexidade e os desafios homéricos do mundo contemporâneo e, como vimos, de todos os tempos.

*Texto originalmente publicado na revista Direcional Escola (abril/2020), da qual o autor é colunista.

Imagens: Jean Galvão / Fundação Santillana